O Sr. Depósito a Prazo e sua predisposição ao mau colesterol, por Ricardo Coelho

O Sr. Depósito a Prazo e sua predisposição ao mau colesterolAlguns temas passam a nos ser familiar por diversos motivos, e um deles ultimamente me ronda e gradualmente passa a ser corriqueiro, em especial por já estar chegando aos sessenta anos e ter duas filhas médicas atentas a minha saúde. Falo do colesterol que é um tipo de gordura produzida no fígado que está presente em todas as células do corpo e exerce importantes funções no organismo. De forma breve temos o HDL, que simplificando significa lipoproteínas de alta densidade, também conhecidas como “bom colesterol”, e quanto maior for, menor a probabilidade de desenvolvermos doenças cardíacas. Já o LDL é conhecido como o “mau colesterol” e são lipoproteínas de baixa densidade, que quanto maior, maior a chance de doenças cardíacas.

Então fica a pergunta! O que tem o colesterol a ver com o Depósito a Prazo de minha Singular? Vamos analisar um cenário que deva provavelmente estar ocorrendo em sua carteira de Depósito a Prazo e que pode estar passando despercebido, pois podem estar acreditando que nele não há sinais de anomalias ou por não estarem fazendo “check ups” periódicos em sua carteira de captação. Essa exposição de motivos é porque acreditamos que algumas Singulares deveriam amanhã cedo, em jejum, ir a um laboratório “tirar sangue” da sua carteira de Depósito a Prazo para analisar como ela está e vem se portando nesses últimos anos, e se há necessidade de correções medicamentosas.

Sabemos que são silenciosas e paulatinas as doenças do coração causadas pelo mau colesterol (LDL), e esse mesmo mal pode minar a composição e crescimento de uma carteira de Depósito a Prazo. Isso pode ocorrer mesmo que os seus números nos passem a impressão de um constante e sólido crescimento. Mas para que possamos minimizar esses eventuais malefícios precisamos ter a correta percepção da sua existência e, então, adotarmos rotinas de “exercícios físicos” e “ingestão de remédios” para controlá-lo e monitorar a sua redução. Essa ação irá requerer que tenhamos indicadores estratégicos para reconhecer e acompanhar a saúde de nosso Depósito a Prazo, mas isso tende a ser ofuscado quando há sinais externos de crescimento da carteira em patamares muito superior ao projetado, o que pode causar uma evolução do funding a patamares muito acima do que a Singular consegue alocar de crédito na carteira de recursos próprios.

Mas onde residiriam as melhores hipóteses para esses crescimentos vertiginosos nessa carteira de captação e que podem ocultar sinais de imperfeições que podem colocar em xeque no médio e longo prazo a boa gestão e a alocação do funding de uma Singular? Vamos a algumas delas:

1. Nossos bons investidores percebem ano após ano que nossa remuneração nessa aplicação é muito interessante, já que automaticamente fazem conta de quanto as Sobras vem somando a seu ganho. Assim, consideram como excelente o ganho final líquido, esse muito superior ao fornecido pelo mercado a um mesmo nível risco. Portanto, é natural que muitos desses investidores acelerem a concentração na Singular de seus investimentos espalhados no mercado, bem como automaticamente nos direcionem suas novas folgas de caixa.

2. As instituições cooperativistas de crédito vêm ganhando notoriedade nesses últimos anos por parte dos investidores tradicionais de baixo risco do mercado. Esses gradualmente passam a nutrir ótima percepção quanto a segurança da instituição e não mais balizam suas decisões pelo teto coberto pelo Fundo Garantidor do Cooperativismo de Crédito (FGCoop), algo que já ocorre naturalmente em bancos de varejo primeira linha, onde o Fundo similar é algo que nem se cogita quando esses tradicionais investidores lá aportam seus generosos recursos;

3. A experiência de mais de 40 anos nesse mercado nos faz concluir que os bons investidores com perfil para aplicações conservadoras como o Depósito a Prazo são pessoas reservadas e de poucos amigos, os quais tendem a ter também esse mesmo perfil investidor. Esses facilmente se influenciam mutuamente e a seus dependentes diretos quanto às boas opções de aplicações financeiras. Gerando um movimento discreto e crescente de novos sócios bons investidores que nos procuram única e exclusivamente para aplicar em nosso Depósito o Prazo, buscando uma rentabilidade final segura e acima do mercado.

Seria oportuno acompanhar o ticket médio dos 20% maiores investidores (não volume) para validar se nesse rol não vêm surgindo novos investidores e se o saldo da carteira não vem de forma líquida facilmente superando as metas e indicadores como: IPCA, IGPM, Poupança entre outros. Isso é um sinal claro de que a Singular precisa reinventar a forma de entender e atender esses investidores, sem que os perca pela falta de “atratividade racional”, já que eles são raros no mercado e assediados dia a dia por novas a tentadoras opções de investimento financeiro ou mesmo são tentados a direcionar essa sua riqueza a patrimônios ou bens de produção que são por eles tradicionalmente dominados (estoque, equipamentos, expansão empresarial, gado, terras etc). Se não damos vazão a esse dinheiro em nossa carteira de crédito, isso é um problema menor do que não ter recursos para emprestar em uma provável elevação de nossas demandas creditícias, portanto, em conceito, mais fácil de gerenciar.

Importante: Temos três outras fontes tradicionais de funding que precisam ser aqui relembradas para melhor compreensão de nossa preocupação com o eventual “descaso” com o Depósito a Prazo. Uma seria que a elevação das Reservas precede de elevados resultados comerciais e de uma ótima situação política e econômica da Singular. Outras são o Capital Social e o Depósito à Vista. Eles que podem ter custos elevados, algumas vezes até maior que a rentabilidade média paga ao Depósito a Prazo, dependendo da forma de rentabilizá-los. Esses requerem um enorme esforço mercadológico e seus resultados são lentos e podem sofrer fortes sobressaltos pela sua natureza. Portanto, não devemos desdenhar a importância do Depósito a Prazo para a perpetuação de um Singular. Assim sendo, devemos ser muito cautelosos evitando adotar ações de curto prazo que podem miná-lo no médio e longo prazo, gerando um passivo comercial de dificílima correção.

4. Diante da crise econômica e política que se instalou é natural que a Singular esteja mais criteriosa na alocação de seus recursos, acelerando o descompasso entre o crescente volume de captação e alocação de crédito em nossa carteira. Mas nesse mesmo cenário desregrado é natural a aceleração da “poupança” por parte dos tradicionais empreendedores que esperam novos sinais claros de retomadas econômicos para alocar suas reservas em seus meios de produção que tradicionalmente dominam. Esse cenário de desconfiança por parte dos detentores de riquezas gera naturalmente um superávit na captação frente à alocação desses recursos.

5. Muitas Singulares vêm obtendo nos últimos anos crescentes ganhos na centralização em função de seu excesso de liquidez, sendo que o Depósito a Prazo é uma das fontes de funding que mais colabora com esse volume aplicado. Mas ocorre que a rentabilidade obtida pela aplicação do excesso crescente de liquidez nas Centrais (ou bancos de primeira linha) é balizada pelo DI, indicador esse que norteia a nossa captação em Depósito a Prazo. Diante de uma Selic (DI) que sofre rápidas quedas, os ganhos nessa centralização serão cada vez menores e afetam sobremaneira a rentabilidade financeira prevista pela Singular. E isso, sem computar nossos custos de processo para captar e resgatar o Depósito a Prazo. Vamos analisar outros aspectos:

5.1) Em função da necessidade de gerar crescentes resultados e pelo impacto da drástica redução da Selic (DI) nos ganhos na centralização, vê-se alguns movimentos mais “expansivos” para se obter ganhos acima do DI em algumas dessas aplicações. Assim sendo, devemos ter cautela ao constatar que nossa exposição ao risco na centralização pode superar a necessária prudência, já que, muito dessa aplicação deveria ser hiperconservadora, alinhada a nossa baixa expertise quanto ao risco desse mercado, portanto não seria plausível corrermos riscos em aplicações na centralização para ganharmos alguns percentuais mínimos acima do DI, que diretamente sinaliza que nos expomos a um risco acima dos promovidos por títulos públicos negociados por bancos de primeira linha. Devemos perseguir a nossa conservadora e coerente postura de fazer resultado em nosso comércio cotidiano de compra e venda de recursos entre nossos sócios, atrelando serviços da conta corrente e de parceiros.

5.2) É importantíssimo ponderar que o valor aplicado como excesso de liquidez não tem como fonte apenas o Depósito a Prazo, já que esse montante é uma cesta dinâmica composta por várias fontes de funding como Capital Social, Reservas, Depósito à Vista… . Portanto, o que pagamos na aplicação média em nosso Depósito a Prazo não deveria balizar nossa decisão por essa ou aquela aplicação na centralização. Além do que, em nossa carteira de crédito somos imensamente muito mais rentáveis e nela, em conceito, se for bem precificada e gerida, viabilizaremos a nossa razão de ser como cooperativa de crédito e não os ganhos na centralização com risco acima dos títulos públicos negociados por bancos de primeira linha. É nessa eficácia na compra e venda de recursos entre nossos sócios que o mercado irá decidir se somos merecedores de continuar a participar de seu jogo. Nada menos que isso!

6. É fácil operacionalmente para uma Singular reduzir “drasticamente” suas remunerações ao Depósito a Prazo, sobre a alegação que o mercado paga muito menos e que ela, em conceito, não precisa de recursos por ter hoje um generoso excesso de liquidez. Mas aqui podem residir alguns pontos de atenção:

6.1) Devemos sempre observar que nossos bons investidores têm antigas e crescentes posições em Depósitos a Prazo e essas remuneradas a taxas próximas a 100% do DI. Esses esclarecidos, seletos e ótimos investidores percebem que com a redução da Selic seus ganhos líquidos finais estão diminuindo frente ao passado recente. Assim, se nesse momento optarmos por reduzir muito nossa tabela de captação, esses investidores podem ser incitados a procurar outras opções para remunerar melhor seus recursos. Gerando uma lacuna importante para uma instituição financeira que pretende superar novas e cíclicas crises que certamente irão nos assolar, mesmo que hoje acreditem serem enormes suas Reservas e o seu Capital Social. Fechar de forma drástica essa válvula pode ser um erro irreversível, que afetará a geração de novas generosas Sobras, e assim, aportes nas Reservas e Capital Social.

6.2) Vemos previsões muito otimistas quanto ao retorno em Singulares que decidem reduzir os ganhos em sua tabela de captação. Aparentemente esquece-se de considerar que o efeito na rentabilidade será muito lento já que afeta apenas nas novas aplicações, que devem crescer de forma discreta pela menor atratividade, afugentando-os da Singular. As antigas são as mais representativas em volume e serão mantidas a elevadas rentabilidades.

6.3) Verifica-se que o mesmo ganho da Singular teria com uma forte redução em sua tabela de captação, muitas vezes seria facilmente obtido por uma repactuação de um contrato com terceiros, uma revisão em custos internos, um acréscimo discreto na taxa do cheque especial, majoração na mora, incremento no pacote elementar de serviços etc. Isso, pois, essas ações tem um impacto muito menor que o desgaste na percepção de que somos bons parceiros em nossos bons investidores, que são os clientes mais raros do mercado.

6.4) A mera redução da tabela de captação pode ser um grande problema no médio e longo prazo, já que é raro encontrar Singulares que tenham sido eficazes em orientar seu quadro comercial na argumentação efetiva que explicita aos seus bons investidores qual foi no último ano o ganho “global” dos clientes de Depósito a Prazo tendo como base o DI e seus “bônus” na Assembleia. Mesmo que concordemos que não há como garantir que no próximo ano teremos o mesmo ou um ainda maior “bônus”, a mera redução da tabela de captação sem esse entendimento do efetivo do “bônus” na rentabilidade ocorrido na última Assembleia dificulta o convencimento do investidor sobre esse nosso enorme diferencial. Tornando as Sobras muito mais um custo que um excelente diferencial comercial.

Importante: Singulares que remuneram o Capital Social pela Selic tem nessa fonte de funding um desembolso superior ao gasto no Depósito a Prazo (base DI). Elas podem rever essa remuneração a patamares menores, ou mesmo não o remunerar, visando maiores Sobras ou redução de despesas. Contudo essa tradicional ação é desalinhada com nossos princípios, a qual prima para que primeiro busquemos remunerar de forma relevante o capital dos sócios, para então distribuir Sobras, como ocorre em qualquer empresa de mercado. Já que não é coerente em nosso mercado uma empresa penalizar seus sócios com menor rentabilidade legal (Selic) por priorizar a distribuição de novos bônus (Sobras) a seus clientes usuários. Por fim, a remuneração coerente do Capital Social o torna atrativo e permite que o sócio o veja como uma nova forma de agregar previdência a sua vida. Sem essa coerente remuneração, há uma pífia atratividade no aporte voluntário em Capital, e, portanto apenas os tomadores de crédito é que nele irão espontaneamente aportar. Os demais sócios tendem compulsoriamente a só aportar recursos no Capital Social se pagarmos juros ou houver Sobras.

OBS: Temos ciência que a atual redução drástica da Selic (seguido pelo DI) potencializa em muito a rentabilidade da carteira de crédito pela redução do custo com a nossa captação em Depósito a Prazo, a qual compõe nosso funding. E esse tema será minuciosamente debatido em um próximo artigo para que não sejamos induzidos a somente ver suas aparentes vantagens.

Reflexões Finais: Há uma tendência natural da parcela de mau colesterol sorrateiramente evoluir colocando em xeque nossa capacidade de mantê-lo a níveis controlados, e isso pode estar ocorrendo com o seu maior produto de captação.

Portanto urge tirarmos uma amostra de sangue do nosso Sr. Depósito a Prazo e que sejamos extremamente criteriosos e imparciais na análise desses resultados, sem nunca deixar de compará-los com os antigos diagnósticos. Esse cuidado evitará conclusões apenas olhando sua aparência.

Concordar é secundário. Refletir é urgente
Ricardo Coelho – Consultoria e Treinamento Comercial para Instituições Financeiras
www.ricardocoelhoconsult.com.br – 41-3569-0466 – 99973-9495 – Postado 12/06/2016


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